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		<title>Pensar é Destruir</title>
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		<pubDate>Sun, 08 May 2011 11:56:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente, como um gato ou um cão &#8211; assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente, como um gato ou um cão &#8211; assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão.<br />
Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem meditar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da acção, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte. </p>
<p><em>Fernando Pessoa, in &#8216;O Livro do Desassossego&#8217;</em></p>
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		<title>Como uma Voz de Fonte que Cessasse</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Apr 2011 23:12:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Como uma voz de fonte que cessasse (E uns para os outros nossos vãos olhares Se admiraram), p’ra além dos meus palmares De sonho, a voz que do meu tédio nasce Parou&#8230; Apareceu já sem disfarce De música longínqua, asas nos ares, O mistério silente como os mares, Quando morreu o vento e a calma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como uma voz de fonte que cessasse<br />
(E uns para os outros nossos vãos olhares<br />
Se admiraram), p’ra além dos meus palmares<br />
De sonho, a voz que do meu tédio nasce </p>
<p>Parou&#8230; Apareceu já sem disfarce<br />
De música longínqua, asas nos ares,<br />
O mistério silente como os mares,<br />
Quando morreu o vento e a calma pasce&#8230; </p>
<p>A paisagem longínqua só existe<br />
Para haver nela um silêncio em descida<br />
P’ra o mistério, silêncio a que a hora assiste&#8230; </p>
<p>E, perto ou longe, grande lago mudo,<br />
O mundo, o informe mundo onde há a vida&#8230;<br />
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo&#8230; </p>
<p><em>Fernando Pessoa</em></p>
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		<title>Gostava de Gostar de Gostar</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2011 00:09:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Gostava de gostar de gostar. Um momento&#8230; Dá-me de ali um cigarro, Do maço em cima da mesa de cabeceira. Continua&#8230; Dizias Que no desenvolvimento da metafísica De Kant a Hegel Alguma coisa se perdeu. Concordo em absoluto. Estive realmente a ouvir. Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho). Que coisa curiosa estas associações de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostava de gostar de gostar.<br />
Um momento&#8230; Dá-me de ali um cigarro,<br />
Do maço em cima da mesa de cabeceira.<br />
Continua&#8230; Dizias<br />
Que no desenvolvimento da metafísica<br />
De Kant a Hegel<br />
Alguma coisa se perdeu.<br />
Concordo em absoluto.<br />
Estive realmente a ouvir.<br />
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).<br />
Que coisa curiosa estas associações de idéias!<br />
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.<br />
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel&#8230; </p>
<p><em>Álvaro de Campos</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cântico Negro</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Mar 2011 23:19:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Vem por aqui&#8221; &#8211; dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: &#8220;vem por aqui!&#8221; Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali&#8230; A minha glória é esta: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Vem por aqui&#8221; &#8211; dizem-me alguns com os olhos doces<br />
Estendendo-me os braços, e seguros<br />
De que seria bom que eu os ouvisse<br />
Quando me dizem: &#8220;vem por aqui!&#8221;<br />
Eu olho-os com olhos lassos,<br />
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)<br />
E cruzo os braços,<br />
E nunca vou por ali&#8230; </p>
<p>A minha glória é esta:<br />
Criar desumanidade!<br />
Não acompanhar ninguém.<br />
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade<br />
Com que rasguei o ventre à minha mãe </p>
<p>Não, não vou por aí! Só vou por onde<br />
Me levam meus próprios passos&#8230; </p>
<p>Se ao que busco saber nenhum de vós responde<br />
Por que me repetis: &#8220;vem por aqui!&#8221;? </p>
<p>Prefiro escorregar nos becos lamacentos,<br />
Redemoinhar aos ventos,<br />
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,<br />
A ir por aí&#8230; </p>
<p>Se vim ao mundo, foi<br />
Só para desflorar florestas virgens,<br />
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!<br />
O mais que faço não vale nada. </p>
<p>Como, pois sereis vós<br />
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem<br />
Para eu derrubar os meus obstáculos?&#8230;<br />
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,<br />
E vós amais o que é fácil!<br />
Eu amo o Longe e a Miragem,<br />
Amo os abismos, as torrentes, os desertos&#8230; </p>
<p>Ide! Tendes estradas,<br />
Tendes jardins, tendes canteiros,<br />
Tendes pátria, tendes tectos,<br />
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios&#8230;<br />
Eu tenho a minha Loucura !<br />
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,<br />
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios&#8230; </p>
<p>Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.<br />
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;<br />
Mas eu, que nunca principio nem acabo,<br />
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. </p>
<p>Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!<br />
Ninguém me peça definições!<br />
Ninguém me diga: &#8220;vem por aqui&#8221;!<br />
A minha vida é um vendaval que se soltou.<br />
É uma onda que se alevantou.<br />
É um átomo a mais que se animou&#8230;<br />
Não sei por onde vou,<br />
Não sei para onde vou<br />
- Sei que não vou por aí! </p>
<p><em>José Régio,</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Fundo do Mar</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Mar 2011 23:37:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[No fundo do mar há brancos pavores, Onde as plantas são animais E os animais são flores Mundo silencioso que não atinge A agitação das ondas. Abrem-se rindo conchas redondas, Baloiça o cavalo-marinho. Um polvo avança No desalinho. Dos seus mil braços, Uma flor dança. Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No fundo do mar há brancos pavores,<br />
Onde as plantas são animais<br />
E os animais são flores<br />
Mundo silencioso que não atinge<br />
A agitação das ondas.<br />
Abrem-se rindo conchas redondas,<br />
Baloiça o cavalo-marinho.<br />
Um polvo avança<br />
No desalinho.<br />
Dos seus mil braços,<br />
Uma flor dança.<br />
Sem ruído vibram os espaços.<br />
Sobre a areia o tempo poisa<br />
Leve como um lenço.<br />
Mas por mais bela que seja cada coisa<br />
Tem um monstro em si suspenso.</p>
<p><em>Sophia de Mello Breyner Andersen</em></p>
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		<title>Distância</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 01:59:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Só à distância se admira alguém, no tempo ou no espaço, porque nos não faz concorrência. Sinto que enfim começo a ser aceite. Sinal de que já vou sendo do passado. Vergílio Ferreira]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a title="Évora" rel="lightbox" href="http://farm1.static.flickr.com/178/414935121_4138ebd9a4_z.jpg?zz=1"><img class="aligncenter" title="Évora" src="http://farm1.static.flickr.com/178/414935121_4138ebd9a4_z.jpg?zz=1" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>Só à distância se admira alguém, no tempo ou no espaço, porque nos não faz concorrência. Sinto que enfim começo a ser aceite. Sinal de que já vou sendo do passado.</p>
<p><em>Vergílio Ferreira</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Amizade na Empatia Divergente</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Feb 2011 01:53:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[As pessoas que mais admiro são aquelas que melhor divergem da minha pessoa. Claro está, só se diverge de outrem dentro do que nos é comum. Porque há quem nada tenha de comum connosco, nem sequer a própria existência e a mesma humanidade. E não esqueçamos que o espaço e o tempo são aparências por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As pessoas que mais admiro são aquelas que melhor divergem da minha pessoa. Claro está, só se diverge de outrem dentro do que nos é comum. Porque há quem nada tenha de comum connosco, nem sequer a própria existência e a mesma humanidade. E não esqueçamos que o espaço e o tempo são aparências por nós fabricadas para dar passo ao espírito e não lenha para nos queimarmos. Ao mesmo tempo e no mesmo espaço podem juntar-se as pessoas mais alheias entre si e como não acontece na História em tempos e espaços diferentes. A universalidade humana é tão vária que pode um satisfazer inteiramente a sua e sem que lhe passe sequer pela cabeça a de outro que satisfaça também completamente a dele.</p>
<p>O tempo de cada qual é o justo para si. Não é dado a ninguém a ocasião da polícia do tempo de outrem. De modo que à porta da nossa intimidade havemos de pôr a admiração por aquele que vai entrar, tanto em quanto diverge como em quanto coincide connosco. Por outras palavras: não vale mais o nosso mistério do que o de outro qualquer. Só o mistério chega inteiro ao fim. </p>
<p><em>Almada Negreiros</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sentes, Pensas e Sabes que Pensas e Sentes</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Feb 2011 16:57:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Dizes-me: tu és mais alguma cousa Que uma pedra ou uma planta. Dizes-me: sentes, pensas e sabes Que pensas e sentes. Então as pedras escrevem versos? Então as plantas têm idéias sobre o mundo? Sim: há diferença. Mas não é a diferença que encontras; Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dizes-me: tu és mais alguma cousa<br />
Que uma pedra ou uma planta.<br />
Dizes-me: sentes, pensas e sabes<br />
Que pensas e sentes.<br />
Então as pedras escrevem versos?<br />
Então as plantas têm idéias sobre o mundo? </p>
<p>Sim: há diferença.<br />
Mas não é a diferença que encontras;<br />
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:<br />
Só me obriga a ser consciente. </p>
<p>Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.<br />
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos. </p>
<p>Ter consciência é mais que ter cor?<br />
Pode ser e pode não ser.<br />
Sei que é diferente apenas.<br />
Ninguém pode provar que é mais que só diferente. </p>
<p>Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.<br />
Sei isto porque elas existem.<br />
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.<br />
Sei que sou real também.<br />
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,<br />
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.<br />
Não sei mais nada. </p>
<p>Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.<br />
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.<br />
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;<br />
E as plantas são plantas só, e não pensadores.<br />
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto, </p>
<p>Como que sou inferior.<br />
Mas não digo isso: digo da pedra, &#8220;é uma pedra&#8221;,<br />
Digo da planta, &#8220;é uma planta&#8221;,<br />
Digo de mim, &#8220;sou eu&#8221;.<br />
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?<br />
<em><br />
Alberto Caeiro</em></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O Principezinho e a Raposa&#8230;</title>
		<link>http://blog.soeusei.net/?p=185</link>
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		<pubDate>Mon, 24 Jan 2011 15:19:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pb</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[E foi então que apareceu a raposa: - Boa dia, disse a raposa. - Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada. - Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira&#8230; - Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita&#8230; - Sou uma raposa, disse a raposa. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a title="Principezinho" rel="lightbox" href="hhttp://api.ning.com/files/cbLcMFdsmsvpmkv-kDvv8TrQEMehJDzyHp4j3QLefY0ToVNCEaXLKzj0bCWc1YkkT5zoDLJW89-DZTNAFwDidDm9tVGd4eG7/Pequenoprncipe.bmp"><img class="aligncenter" title="Principezinho" src="http://api.ning.com/files/cbLcMFdsmsvpmkv-kDvv8TrQEMehJDzyHp4j3QLefY0ToVNCEaXLKzj0bCWc1YkkT5zoDLJW89-DZTNAFwDidDm9tVGd4eG7/Pequenoprncipe.bmp" alt="" width="400" height="253" /></a></p>
<p>E foi então que apareceu a raposa:<br />
- Boa dia, disse a raposa.<br />
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.<br />
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira&#8230;<br />
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita&#8230;<br />
- Sou uma raposa, disse a raposa.<br />
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste&#8230;<br />
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.<br />
- Ah! desculpa, disse o principezinho.<br />
Após uma reflexão, acrescentou:<br />
- Que quer dizer &#8220;cativar&#8221;?<br />
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?<br />
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer &#8220;cativar&#8221;?<br />
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?<br />
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer &#8220;cativar&#8221;?<br />
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa &#8220;criar laços&#8230;&#8221;<br />
- Criar laços?<br />
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo&#8230;<br />
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor&#8230; eu creio que ela me cativou&#8230;<br />
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra&#8230;<br />
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.<br />
A raposa pareceu intrigada:<br />
- Num outro planeta?<br />
- Sim.<br />
- Há caçadores nesse planeta?<br />
- Não.<br />
- Que bom! E galinhas?<br />
- Também não.<br />
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.</p>
<p>Mas a raposa voltou à sua idéia.<br />
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.</p>
<p>O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo&#8230;<br />
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:<br />
- Por favor&#8230; cativa-me! disse ela.<br />
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.<br />
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!<br />
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.<br />
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto&#8230;<br />
No dia seguinte o principezinho voltou.<br />
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração&#8230; É preciso ritos.<br />
- Que é um rito? perguntou o principezinho.<br />
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!</p>
<p>Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:<br />
- Ah! Eu vou chorar.<br />
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse&#8230;<br />
- Quis, disse a raposa.<br />
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.<br />
- Vou, disse a raposa.<br />
- Então, não sais lucrando nada!<br />
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.<br />
Depois ela acrescentou:<br />
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.<br />
Foi o principezinho rever as rosas:<br />
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.<br />
E as rosas estavam desapontadas.<br />
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.<br />
E voltou, então, à raposa:<br />
- Adeus, disse ele&#8230;<br />
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.<br />
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.<br />
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.<br />
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa&#8230; repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.<br />
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa&#8230;<br />
- Eu sou responsável pela minha rosa&#8230; repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.</p>
<p><em>Antoine de Saint-Exupéry</em></p>
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		<title>Esperança</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Dec 2010 01:42:30 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;A verdadeira esperança é uma qualidade, uma determinação heróica da alma. E a mais elevada forma de esperança é o desespero superado&#8221; Georges Bernanos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;A verdadeira esperança é uma qualidade, uma determinação heróica da alma. E a mais elevada forma de esperança é o desespero superado&#8221;</p>
<p><em>Georges Bernanos</em></p>
<p style="text-align: center;"><a title="Alegria" rel="lightbox" href="http://farm2.static.flickr.com/1106/529564563_c1c7b45a00_z.jpg?zz=1"><img class="aligncenter" title="Esperança" src="http://farm2.static.flickr.com/1106/529564563_c1c7b45a00_z.jpg?zz=1" alt="" width="400" height="253" /></a></p>
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